O Desfecho

Ela

Entrou no ônibus.

Ele

Já estava lá dentro, em pé no corredor.

Ela

Parou ao lado dele por acaso, segurou a mochila de lado e abriu um livro.

Ele

Assistia alguma coisa pelo celular que parecia um vídeo de culinária.

Ela

Descobriu que o livro era muito mais engraçado do que pensara e não disfarçava o riso quando vinha a vontade.

Ele

Percebeu o riso dela.

Ela

Olhou pro lado distraída e se surpreendeu quando encontrou os olhos dele.

Ele

Voltou os olhos pra janela.

Ela

Voltou os olhos para o livro.

O ônibus entrou numa curva. Não sei se foi a mão dele que esbarrou na dela ou se foi a mão dela que esbarrou na dele.

Ele e Ela

Desculparam-se.

Ele

Sentou num lugar que vagou e perguntou se ela queria que segurasse sua mochila.

Ela

Agradeceu, mas desceria dali a dois pontos.

Esse foi o começo da história de amor que nunca aconteceu.

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A Sugestão

Todos os dias abria o dicionário à cata de novidades. Consultava o grosso livro com a deferência de quem consulta um oráculo. Acreditava que a palavra lida nas primeiras horas da manhã teria o poder de influenciar todo o seu dia.

Foi quando leu o verbete alvíssaras naquela manhã de segunda-feira que teve certeza de que teria um ótimo dia. Não sabia como nem por que, mas certamente ajudaria alguém a encontrar algo ou alguma resposta e receberia agradecimentos por sua ajuda. Saiu de casa, então, pronto para receber suas tão esperadas alvíssaras. O profético acontecimento se deu ainda pela manhã, quando uma senhora lhe solicitara informações sobre como chegar a não-sei-onde, a qual, mediante a resposta, agradeceu-lhe calorosamente.

A terça-feira começou cinzenta lá fora e, depois da consulta ao dicionário, tornar-se-ia igualmente cinzenta por dentro: escanzurrar. O livro nunca se enganava, teria um dia de trabalho cheio e cansativo. O que, desnecessário dizer, se mostrou verdadeiro.

O mistério deu a tônica ao verbete de quarta-feita: liliputiano. Nosso amigo tinha consciência de que os oráculos falam, muitas vezes, por meio de enigmas, mas o que o dicionário queria dizer com aquilo? No entanto, foi após o almoço, quando se encaminhava novamente para o escritório, que desvendara a charada. Passando em frente ao Teatro viu que estava em cartaz uma releitura de Branca de Neve e os Sete Anões e que havia uma sessão para aquele mesmo dia. Comprou o ingresso sem mais questionamentos.

A quinta-feira amanheceu ensolarada. Dormira tarde pensando na apresentação que assistira na véspera. Por pouco teria perdido a profecia do dia, sabe-se lá o que poderia acontecer se não tivesse tido contato com liliputianos… A palavra de quinta, entretanto, não era tão misteriosa quanto à do dia anterior: dulcidão. Não soube bem o porquê, mas antes de chegar ao trabalho entrou na confeitaria e comprou seis sonhos de creme. Estava cumprida a profecia: se meia dúzia de sonhos não enchessem sua vida de dulcidão, nada mais seria capaz de fazê-lo.

Quando abriu o dicionário na sexta-feira não estava esperando tamanha falta de consideração. Sentiu-se ofendido. Quis chorar. Saiu de casa inconsolável. Nada mais parecia fazer sentido em sua vida. O céu. As flores. O trânsito. Tudo se tornou uma sequencia interminável de frases curtas. As horas passaram numa lentidão nunca antes percebida.

O verbete de sexta-feira foi sugestionável.

 

Minhas mortes

A primeira vez que eu morri foi a mais triste. Não estava acostumado com aquela choradeira e chorei junto. Senti meu corpo ficando leve e saindo dali mas eu não queria, achava que se eu quisesse muito podia voltar pra vida. Riram muito de mim por causa disso… Faz parte, sei como é divertido recepcionar os novatos e aquela tinha sido minha primeira morte afinal.

A segunda morte me irritou bastante. Tinha nascido numa família bacana e herdaria uma pequena fortuna. Era novo ainda. Dessa vez nem desesperei com a choradeira, eu já sabia como funcionava o processo. Foi legal que reencontrei alguns amigos da morte anterior, porque na real, a vida é só um intervalo entre duas mortes. Sabe aquele ditado: “nada como um dia depois do outro com uma noite no meio”? Então, é bem assim, nada como viver algumas vezes pra dar valor a morte… Essa frase é como um mantra por aqui.

A terceira morte foi uma festa, tinha tido uma vida longa e não via a hora de morrer. A galera daqui já me conhecia e rolou até festa! Teve show da orquestra de harpas, foi bom mas eu, particularmente, não gosto de harpa, acho estereotipado demais. Mas a molecada daqui parece curtir muito.

A quarta morte foi bem inusitada. Não sei porque meu objetivo de vida (só esquecendo mesmo da morte pra ter esse tipo de objetivo) era chegar ao topo do Monte Evereste. Eu cheguei… E fiquei por lá… Faz parte. Foi uma morte tranquila e como já conheço bem o processo fiz a passagem sem drama. Cheguei a tempo da festa de aniversário de um amigo. Ele estava completando dezoito mortes!

Quando me pediram pra escrever disseram: “escreve aí alguma mensagem, alguma coisa sobre o valor da morte.” Bom, o que posso dizer? O que vale na morte são as relações que você estabelece, não tem nada melhor do que voltar de uma vida e encontrar teu pessoal te esperando pra passar um tempo da morte deles com você. É um privilégio muito grande porque as mortes passam muito rápido e quando você menos espera, já é hora de voltar pra vida.

Jú Abdon

A abdução

Foi abduzido.

O dia mal havia começado e a nave espacial pousou na porta de sua casa.

Ao que consta, os extraterrestres não quiseram saber de mais ninguém da família, apenas dele.

Os homenzinhos verdes teriam chegado sem alarde. Tocaram a campainha. Arnaldo, recém desperto, atendeu a porta.

Arnaldo jamais imaginara que seria daquela forma. Se fosse pra ser abduzido, ao menos que fosse pra ser levado por um facho de luz na calada da noite.

Desse jeito não tinha graça: abriu a porta e o distinto visitante de outro mundo foi dizendo:

– Bom dia, você é o Arnaldo?

– Sim, sou eu.

– O senhor foi sorteado para ser levado para o meu planeta.

– Como assim “levado”?

– Conduzido, se o senhor preferir.

– Conduzido pra onde? Eu estou preso?

– Não, trata-se de uma abdução.

– Abdução? Olha aqui, é domingo, não são nem sete da manhã, que papo é esse de abdução?

– Você foi sorteado para ser levado, conduzido – como preferir – ao meu planeta.

– Isso é alguma nova modalidade de sequestro?

– Arnaldo, eu não tenho o dia inteiro, tem uma galera ainda pra pegar e eu tenho hora. Faça o favor de entrar naquela nave ali.

Arnaldo pediu cinco minutos para deixar um bilhete para a família.

Depois, se dirigiu a nave, sem mais.

Jú Abdon

Melhor prevenir

– Alô?

– Alô, Fernanda?

– Oi, quem tá falando?

– É o Miguel.

– Deve ser engano então porque eu não conheço nenhum Miguel.

– É que você não me conheceu ainda.

– Você está tentando me vender alguma coisa? Se for, eu não vou querer nada.

– Não, é que nós vamos nos casar dentro de seis meses.

– Isso é alguma espécie de cantada? Por que, olha, não está funcionando.

– Não é cantada. Deixa-me explicar, nós vamos nos conhecer naquele barzinho que você vai com suas amigas, o Montanha’s.

– E como você pode saber disso? Você conhece a Patrícia não é? Sabia, ela está aprontando alguma…

– Ah, a Patrícia… conheço sim, mas não vem ao caso ainda. Presta atenção, nós vamos nos conhecer, vamos nos apaixonar e depois nos casar. Mas as coisas não vão dar muito certo e vai acabar em divórcio.

– Miguel – é esse seu nome, não é?! – digamos que eu acredite nisso tudo que você está me contando, como você pode ter tanta certeza de que as coisas vão acontecer assim?

– Fernanda, você e seu ceticismo habitual… Meu amor – ou melhor – meu ex-amor – as coisas já aconteceram. Tudo aconteceu do jeito que eu te contei. O que eu quero é evitar mais esse transtorno em nossas vidas.

– Nossa, mas foi tão ruim assim?

– Bom, nós tivemos nossos momentos, mas botando na balança, seria melhor que não tivesse acontecido, e é isso que estou tentando fazer.

– Entendi. Então o que você me sugere? Eu não sei qual o dia em que a gente vai se conhecer.

– 17 de abril.

– No Montanha’s?

– Sim.

– Então nesse dia eu não devo sair de casa?

– Não.

– Tudo bem, se você diz que foi tão ruim assim, vamos evitar esse encontro.

– Ótimo Fernanda, um acordo pelos velhos tempos!

– Miguel?

– Oi.

– Me diz uma coisa, por que nós terminamos?

– Ah, foi uma coisa complicada, houve uma situação com uma amiga sua…

– Qual amiga?

– A Patrícia.

– Continue.

– Bom, você nos pegou no nosso quarto, na cama.

– Traidores! Eu devia acabar com vocês dois!

– Foi isso que você disse cinco segundos depois de entrar no quarto…

– Eu não quero mesmo te conhecer, especialmente agora que já sei que você vai me trair!

– Viu? É melhor pra todo mundo! Mas, olha, fala pra Patrícia passar lá no bar, ok?!

Jú Abdon

Vício de linguagem

Desistiu da gramática como quem desiste de um vício. Como quem para de fumar. Mas como não há grupos de apoio para os viciados em gramática trocarem suas angústias e experiências, ensimesmou-se por inteiro de si mesmo. Quando ouvia o farfalhar das folhas, chegava à janela. No demais, era silêncio, por dentro e por fora.

A gramática tomara seu tempo por muitos anos. Difícil imaginá-lo ocupando-se de outra coisa. Que coisa… Respirara tanta gramática que ainda lhe saíam pelos poros todos os pronomes. Permanecia oblíquo, como nos tempos de outrora. Da estante, as antigas drogas olhavam para sua angústia com secreto prazer. Não cogitava se desfazer daquelas que o atormentavam. Desfrutava do sofrimento que as gramáticas lhe proporcionavam. Espécie de penitência, pensava.

Na estante, colecionava ainda muitos objetos. Alguns diretos, outros, indiretos. Outros, ainda, eram ambos. Numa prateleira guardava seus advérbios com quem guarda tesouros. Lustrava todos eles quando se sentia entediado. E quanto tédio sentia…

No começo foi como tirar de si as apertadas algemas da regência.

No meio, experimentou a transitividade que a cada dia se mostrava mais intransitiva.

No final, percebeu que não havia complementos suficientes que dessem sentido a todo aquele período: não tinha ninguém que lhe fosse adjunto.

Jú Abdon